Formigamentos que parecem agulhas, dor que não dá trégua e bolhas ardentes no tórax ou no rosto. Esses são os sinais clássicos do herpes-zóster, infecção que costuma incapacitar sobretudo quem já passou dos 60 anos.

Enquanto a população brasileira envelhece rapidamente, a prevenção por meio da vacina recombinante contra herpes-zóster segue restrita ao setor privado, após o Ministério da Saúde recusar sua inclusão no Sistema Único de Saúde (SUS).

Decisão foi tomada em janeiro de 2026

Em 12 de janeiro de 2026, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) publicou parecer contrário à incorporação da vacina recombinante contra herpes-zóster. O Ministério da Saúde acatou a recomendação.

O governo justificou a negativa pelo critério de custo-efetividade. Segundo a pasta, disponibilizar o imunizante na rede pública custaria R$ 5,2 bilhões em cinco anos, ou cerca de R$ 1,2 bilhão por ano.

Impacto orçamentário representa 0,018 % dos recursos federais

O orçamento federal previsto para 2026 é de R$ 6,54 trilhões. Nesse contexto, o gasto anual adicional com a vacina corresponderia a 0,018 % do total.

No mesmo ano, o Ministério da Saúde dispõe de R$ 271,3 bilhões. Assim, o imunizante consumiria 0,44 % da verba da pasta.

Comparação com outras despesas públicas

Dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop) apontam 124 programas federais programados para 2026 com dotação individual em torno de R$ 1 bilhão, valor semelhante ao necessário para a vacina.

Outra referência é o reajuste de 8 % dos servidores do Poder Judiciário, estimado em R$ 1,77 bilhão, cifra superior ao custo anual do imunizante.

Casos e internações em alta

Levantamento no Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH) mostra 2,6 mil internações por herpes-zóster em 2023, aumento de 13,6 % ante 2022, quando foram registrados cerca de 2,3 mil casos.

Comparado a 2021, o crescimento chega a 31,6 %. Nos Estados Unidos, um em cada três adultos atinge a doença até os 75 anos, segundo o CDC.

País envelhece em ritmo acelerado

Entre 2010 e 2022, o número de brasileiros com 60 anos ou mais saltou 57,4 %, passando de 20,4 milhões para mais de 32 milhões, o equivalente a 15,6 % da população, conforme o IBGE.

Em 2023, esse contingente superou, pela primeira vez, a faixa etária de 15 a 24 anos, reforçando a necessidade de políticas de envelhecimento saudável.

Herpes-zóster afeta principalmente idosos e imunossuprimidos

O vírus varicela-zóster permanece dormente após a catapora e pode reativar-se décadas depois. A incidência cresce a partir dos 60 anos, período em que o sistema imunológico perde eficiência — processo conhecido como imunossenescência.

Além da dor intensa, a infecção pode gerar neuralgia pós-herpética, problema crônico que compromete sono, mobilidade e autonomia.

Vacina tem registro na Anvisa e eficácia comprovada

A vacina recombinante contra herpes-zóster possui aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e é indicada para adultos a partir de 50 anos e para imunossuprimidos acima de 18.

Estudos clínicos demonstram eficácia superior a 90 % na prevenção da doença e das complicações, inclusive nos grupos mais vulneráveis.

Especialistas pedem revisão da decisão

Entidades médicas, pesquisadores e parlamentares criticaram a escolha do governo federal. Segundo eles, a negativa contraria a estratégia de imunização de populações de risco e gera despesas futuras com tratamentos mais complexos.

Alguns defendem alternativas intermediárias, como ofertar a vacina inicialmente a faixas etárias mais avançadas ou negociar preços com o fabricante para reduzir o impacto financeiro.

Projetos de lei em discussão

No Congresso, o Projeto de Lei 3.411/2024 propõe a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa, que inclui a expansão do acesso a vacinas específicas para essa população.

Parlamentares favoráveis argumentam que prevenir complicações melhora a qualidade de vida dos idosos e alivia a pressão sobre a rede de saúde.

Próximos passos

Não há prazo definido para que o Ministério da Saúde reavalie a inclusão da vacina contra herpes-zóster no SUS. Enquanto isso, o imunizante segue disponível apenas na rede privada, com custo que pode ultrapassar R$ 1 mil, valor inacessível para grande parte dos idosos.

Você conhece alguém que já enfrentou a doença? Debates como esse ajudam a definir prioridades no orçamento público e a proteger quem mais precisa.

Publicado originalmente por Chasy Spos.

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