Wall Street comenta, há meses, uma provável estreia da SpaceX na bolsa e possíveis ofertas de OpenAI ou Anthropic.

Na prática, porém, quem dita o ritmo do mercado é outra engrenagem: o mercado de dívida corporativa, que dispara entre as gigantes de tecnologia enquanto as aberturas de capital seguem rareando.

Volume recorde de emissões aponta mudança de rota

Relatórios compilados pelo UBS revelam que a emissão global de títulos ligados a tecnologia e inteligência artificial somou US$ 710 bilhões no ano passado. A tendência, se mantida, pode elevar o montante para US$ 990 bilhões já em 2026 — praticamente o dobro do registrado em 2024.

Esse avanço do mercado de dívida corporativa ocorre em meio a um ciclo intenso de investimentos em infraestrutura de IA. As quatro hyperscalers — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — planejam, juntas, algo em torno de US$ 700 bilhões em despesas de capital este ano para ampliar data centers e capacidade computacional.

Caixa robusto não basta para cobrir a conta

Boa parte das big techs acumulou liquidez confortável nos últimos anos, mas o salto na demanda por IA mudou a equação. O Morgan Stanley calcula um “buraco” de financiamento de US$ 1,5 trilhão para sustentar a expansão, cifra que, em sua maioria, deve ser preenchida com crédito.

Nesse cenário, a busca por recursos externos parece inevitável. Executivos de empresas como Meta, Amazon e Tesla já admitem recorrer “a quantidades prudentes” de dívida para equilibrar o fluxo de caixa às novas ambições.

Oracle e Alphabet puxam a fila de captações bilionárias

Entre os maiores negócios do ano, a Oracle saiu na frente: em fevereiro, a companhia anunciou intenção de levantar entre US$ 45 bilhões e US$ 50 bilhões até 2026, dos quais US$ 25 bilhões já foram vendidos em títulos grau de investimento.

Logo depois, a Alphabet ampliou uma captação iniciada no fim de 2025 e colocou no mercado mais de US$ 30 bilhões em papéis. Os títulos com vencimento em 2029 foram precificados a 3,7% ao ano, enquanto a série para 2031 saiu a 4,1%.

Demanda supera oferta, mas custo pode subir

Segundo bancos que participaram da operação, investidores ofertaram cerca de cinco vezes mais do que o volume colocado pela Alphabet. Analistas, no entanto, alertam: emissões altas tendem a pressionar preços no futuro e elevar os rendimentos pedidos pelos compradores.

Outras gigantes ensaiam entradas no mercado

A Amazon registrou um prospecto que permite misturar ações e dívida em futuras captações, sinalizando flexibilidade. Já a Meta, pela voz da diretora financeira Susan Li, disse avaliar financiamentos “eficientes em custo” sempre que julgar necessário.

A Tesla, por sua vez, admite sondar tanto novas emissões de títulos quanto outras fontes externas. Para a companhia de Elon Musk, que também controla a SpaceX, a expansão de produção e de projetos em IA tem peso decisivo na estratégia de funding.

Fila de IPOs patina mesmo com rumores sobre SpaceX

Apesar do burburinho envolvendo uma fusão entre SpaceX e xAI, que poderia culminar num IPO em 2026 e avaliar o grupo em US$ 1,25 trilhão, não há confirmação oficial. O mesmo vale para OpenAI e Anthropic, frequentemente citadas como candidatas, mas sem calendário definido.

Dados do professor Jay Ritter, da Universidade da Flórida, mostram que 31 empresas de tecnologia abriram capital nos Estados Unidos em 2025 — mais do que nos três anos anteriores somados, porém muito abaixo das 121 ofertas vistas em 2021.

Previsões continuam modestas

O Goldman Sachs prevê cerca de 120 IPOs em todos os setores neste ano, com captação total de US$ 160 bilhões. A cifra supera as 61 ofertas de 2025, mas segue distante dos picos registrados antes da pandemia.

Peso crescente no índice de crédito traz efeito colateral

Com a forte presença de títulos de Alphabet, Oracle, Microsoft e companhia, a fatia do setor de tecnologia já responde por 9% dos índices de crédito corporativo de grau de investimento. Especialistas projetam que esse percentual alcance dois dígitos em breve.

Quanto maior a oferta, maior a probabilidade de investidores pedirem prêmios extras de risco. Se isso acontecer, empresas que voltarem ao mercado de dívida corporativa nos próximos anos podem enfrentar custos mais salgados, o que impacta diretamente suas despesas financeiras.

Efeito na estratégia de longo prazo das big techs

Embora o momento premie a captação via títulos, analistas lembram que o endividamento crescente limita manobras estratégicas, principalmente em cenários de alta de juros ou maior aversão ao risco.

Para sites de tecnologia como o Chasy Spos, acompanhar a evolução do mercado de dívida corporativa virou requisito básico para entender por que tantas empresas adiam o ingresso na bolsa e, ao mesmo tempo, elevam dramaticamente o grau de alavancagem.

Enquanto isso, investidores seguem de olho numa possível virada: caso o apetite por renda variável volte a ganhar tração, as filas de IPOs podem renascer. Até lá, quem domina o palco é o mercado de títulos.

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