Minutos depois de Donald Trump afirmar que Estados Unidos e Israel iniciaram uma grande ofensiva contra o Irã, o X — antigo Twitter — virou palco de uma avalanche de publicações duvidosas. Uma investigação da revista WIRED rastreou centenas de posts que, embora virais, traziam dados distorcidos, vídeos antigos e imagens suspeitas.

O levantamento mostra que a desinformação no X ganhou força em perfil verificado, aquele usuário que paga pelo selo azul e pode lucrar com o engajamento. Enquanto parte da comunidade se esforçava para corrigir os erros, o material enganoso seguia disponível, alcançando milhões de visualizações.

Vídeos antigos voltam a circular como se fossem atuais

A primeira leva de conteúdo problemático envolvia gravações já conhecidas, reaproveitadas fora do contexto original. Entre os exemplos, um clipe divulgado por uma conta com selo azul afirmava mostrar mísseis balísticos sobre Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A filmagem, porém, retratava ataques iranianos contra Tel Aviv em outubro de 2024. Mesmo assim, ultrapassou 4,4 milhões de visualizações antes de receber qualquer sinalização.

Outro vídeo viral alegava exibir um caça israelense abatido por sistemas de defesa do Irã. O material se espalhou entre dezenas de perfis e somou números expressivos, embora não existam registros confiáveis de aeronaves israelenses derrubadas no sábado citado nos posts.

Mísseis hipersônicos e porto de Haifa

Um autodeclarado especialista em inteligência de código aberto também entrou no radar dos analistas. Ele publicou que seis mísseis hipersônicos iranianos teriam atingido o porto de Haifa, em Israel, mostrando um vídeo como evidência. A gravação, na realidade, era de um bombardeio israelense ao Ministério da Defesa em Damasco, ocorrido em julho do ano passado.

Imagens possivelmente geradas por IA reforçam engano

Além dos vídeos reaproveitados, a desinformação no X se alimentou de fotos que parecem ter origem em ferramentas de inteligência artificial. O jornal Tehran Times, alinhado ao governo iraniano, publicou uma imagem que supostamente mostrava um radar americano destruído no Catar após um ataque de drone. Especialistas detectaram traços típicos de geração artificial, como sombras incompatíveis e texturas borradas. Até agora, não há confirmação de danos a instalações dos EUA no país.

Antes e depois que nunca existiu

Um perfil declarado pró-Trump apresentou duas fotos comparativas para ilustrar o “antes e depois” do palácio do líder supremo do Irã, Ali Khamenei. A imagem de “antes”, na verdade, retratava o mausoléu de Ruhollah Khomeini, localizado em outra área de Teerã, enquanto a de “depois” mostrava danos reais provocados pelos bombardeios. O post acumulou centenas de milhares de visualizações.

Contas verificadas impulsionam a desinformação no X

A análise revela que quase todas as publicações mais populares saíram de perfis verificados. Desde que Elon Musk assumiu o comando, o selo azul passou a ser uma assinatura paga que permite monetização com base no engajamento. Isso cria um incentivo financeiro para quem publica conteúdo que desperta cliques rápidos, mesmo que repleto de erros.

Embora algumas postagens recebam notas explicativas da comunidade, o efeito é limitado. O algoritmo continua recomendando o material, e quem chega depois muitas vezes nem vê as correções. Para o leitor comum, distinguir fato de boato torna-se um desafio gigantesco.

Velhos problemas, novo momento

Não é a primeira vez que o X vira sinônimo de confusão informativa em momentos de crise internacional. Conflitos anteriores, como a guerra entre Israel e Hamas ou protestos nos Estados Unidos, já exibiram picos de fake news na plataforma. Agora, com a escalada envolvendo Irã, EUA e Israel, o ciclo se repete em velocidade ainda maior.

Plataforma mantém silêncio diante das acusações

Procurada pela equipe de reportagem da WIRED, a administração do X não respondeu sobre o volume de conteúdos enganosos. A empresa declarou apenas que confia no sistema de notas da comunidade para identificar problemas, mas evitou comentar casos específicos.

Enquanto isso, especialistas em mídia alertam que a desinformação no X seguirá ganhando terreno sempre que grandes eventos dominarem o noticiário. Para leitores e leitoras do Chasy Spos que querem se manter bem-informados, a recomendação é simples: checar múltiplas fontes, verificar datas e, sempre que possível, desconfiar de vídeos ou fotos que parecem “bons demais” para ser verdade.

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